Progresso e gramática.

aqui grande

Um esclarecimento: sou contra o projeto da rede de altas prestações em Portugal. Passa-se de uma rede ferroviária anacrónica e ineficiente para duas redes, uma antiga e outra ultramoderna, sem ligações óbvias entre si nem com o centro das concentrações urbanas que pretendem servir.

Das quatro linhas previstas no acordo com o Estado espanhol (Faro-Huelva, Porto-Vigo, Aveiro-Salamanca e Lisboa-Madrid), o Governo português pretende construir apenas duas (Porto-Vigo e Lisboa-Madrid), e neste cenário de crise económica já deu a entender que a única a ser construída será a linha Lisboa-Madrid. Para além de o corredor (Porto)-Aveiro-Salamanca-Madrid ter maior potencial de utilizadores que o corredor Lisboa-Madrid (algo que é admitido pela própria Rave), o Governo optou pelo corredor sul, algo totalmente excêntrico à mega-região Setúbal-Corunha e que não faz mais que ligar as duas capitais, sem qualquer interesse para o resto do país.

A referida linha (Lx-Madrid) não irá suportar mercadorias. Terá apenas uma terceira linha junto a si em bitola ibérica (!?) que, vinda de Sines, ligará este Porto a Elvas e a Madrid. E será por Madrid que morrerão os nossos sonhos europeus. As composições vindas de Portugal (Lisboa) farão término lá, e nem as mercadorias descarregadas em Sines terão um canal de descarga para a Europa, pois a linha a construir entre Sines e Madrid em bitola ibérica só lhe permitirá alcançar Irun, nos Pirinéus.

Bastaria uma linha a ligar à Meseta, que nem necessitaria da Alta Velocidade para ser eficiente. Na dúvida, a única a construir seria a Linha Aveiro-Salamanca, mista de passageiros e mercadorias, que permitiria o escoamento das mercadorias de todo o país e de passageiros de todo o arco Atlântico entre Viana e Setúbal. Para Madrid e para a Europa.

Também de referir outra injustiça feita ao norte, e isto se as linhas Porto-Lx e Porto-Vigo forem realmente construídas. A norte do Douro, ao contrário das linhas Porto-Lx e Lx-Madrid, a linha será de Velocidade Elevada, o que significa velocidades até 250 km/h. A poupança do governo central começou aqui, na definição das características da via. Depois decidiram que apenas metade da linha seria construída (Braga-Valença), sendo a ligação Braga-Porto (uma das zonas com maior densidade populacional do país) feita pela linha atual, sem passar no aeroporto. A terceira poupança consistiu na opção de ter apenas passageiros na ligação entre Porto e Vigo. O que significa que as mercadorias são atiradas para a Linha do Minho, e os portos do norte continuarão dependentes de uma linha em bitola ibérica.


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4 COMMENTS
Anónimo
Fevereiro 15, 2010
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giro. um abraço

Anónimo
Fevereiro 15, 2010
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ah o anonimo é a maria joão de esposende com preguiça de preencher os mandatory fileds. tou constipada!that’s my excuse bj

Zuruspa
Outubro 28, 2011
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“Passa-se de uma rede ferroviária anacrónica e ineficiente para duas redes, uma antiga e outra ultramoderna” que é o que se passa com a rede rodoviária portuguesa. É insistir no erro. Porque TGV é “chique”, comboio é “brega”. A sério… uma cidade como Viseu, que declarou “guerra santa” aos comboios (a estaçäo até foi dinamitada”, agora já quer TGV? Poupa-se no päo para pagar a lagosta!

A ligaçäo Lisboa-Madrid é prioritária, näo pelas densidades populacionais, mas porque liga 2 capitais europeias, ponto final. E os espanhóis querem usar o Porto de Sines para transporte de carga para a Europa, pela via de AVE já existente Madrid-Barcelona. É simples.

O Norte poderia e deveria puxar por mais investimento no eixo Corunha-Porto, é certo. até porque de Vigo seguirá o AVE para Madrid ainda antes do Porto-Aveiro-Salamanca. E isto por incompetência portuguesa. Os espanhóis näo querem estar dependentes da construçäo do Aveiro-Salamanca pelos portugueses, e entäo contornam o problema. Salamanca-Corunha está em construçäo, ainda os tugas andam a “estudar” o Aveiro-Salamanca. É triste, porque perde o Norte e perde Portugal. Mas pelo menos os portuenses teräo AVE até Madrid, indo por Vigo, que näo é mau.

O pessoal do Norte fala muito, mas aplaudiu de pé a destruiçäo das ferrovias. Queriam era auto-estradas, e de graça. Agora já dói, näo é? É para que aprendam. Só com a Linha do Douro poderiam ganhar milhöes com o turismo, mas deixaram-na ao abandono (já nem falo da Linha do Tua. Na Áustria a Semmeringbahn é das principais, na Alemanha o Reno tem uma linha férrea de cada lado do rio, que liga à do Mosela. Para turismo é excelente, eles sabem-no, e aproveitam. Em Portugal, “comboio é para os pobres”.

Só espero que com a crise se renove a Linha do Oeste e a Linha do Vouga para que o Alfa consiga ir sempre a 200km/h. Näo precisamos de TGV Lisboa-Porto, precisamos é de linhas decentes! Abraço!

Nuno Gomes Lopes
Outubro 29, 2011
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Perdoe-me mas perdi-me no início vagamente elogioso e no miolo sem sentido do seu comentário.

Por partes: o Norte não pediu que se construíssem ‘auto-estradas, e de graça’. As pessoas querem é ‘desenvolvimento’, e todos os políticos portugueses desde que Cavaco chegou ao poder (inclusive) lhes disseram que havia uma relação direta entre o ‘desenvolvimento’ e a construção de autoestradas. As autoestradas e vias rápidas iam sendo inauguradas e as vias férreas iam fechando (ao mesmo tempo) a meio da noite e as populações saíam para a rua a contestar o fecho e ninguém as ouvia. Isso (os fechos e a contestação) aconteceu em todo o Trás-os-Montes. Mas para o senhor Zuruspa não, foi tudo invenção minha.

Sabe quem defende as ‘auto-estradas, e de graça’? Quem não usa o caminho-de-ferro, e prefere ignorar quem dele depende. E esse tipo de pessoas existem por todo o mundo.

Posso também dizer-lhe que me indigna esse tipo de comentário generalista que diz ‘O pessoal do Norte fala muito, mas aplaudiu de pé a destruiçäo das ferrovias.’ Tratar milhões de pessoas como sendo uma pessoa só é primário, ora diga lá se não é? Ninguém me perguntou em referendo se eu queria alguma destas coisas elencadas atrás. Ninguém, nunca.

Continuando na análise do seu comentário primário, o TGV (Alta Velocidade ou Altas Prestações, se me permite – o TGV é um comboio na França). O senhor diz ‘mas porque liga 2 capitais europeias, ponto final’. Ora ligar a capital de um país em que se perdeu a tradição de andar de comboio com a capital do país vizinho sem que exista um fluxo de passageiros que o justifique não é prioritário, com ou sem ponto final. Ainda para mais sendo estas capitais a tal distância uma das outra. A rede alemã de AV não priorizou ligar Berlim a Paris, mas antes ligar as cidades mais importantes entre si, e primeiro as que tinham fluxos que o justificavam. Berlim até ficou um pouco de lado do desenvolvimento inicial da rede.

Prioritário é inverter a distribuição modal das deslocações dos portugueses, onde a maioria dos portugueses utiliza o carro para se deslocar. E ligar LX a Madrid não rouba passageiros ao carro mas antes transfere passageiros do meio aéreo para o meio ferroviário.

‘E os espanhóis querem usar o Porto de Sines para transporte de carga para a Europa, pela via de AVE já existente Madrid-Barcelona. É simples.’ Esta é certamente a maior invenção que tenho ouvido. Diga-me lá qual é esse tal interesse espanhol em ir buscar mercadorias a um porto estrangeiro para as levar para ‘a Europa’. Não há portos espanhóis? Há já muita gente em Portugal que questiona esse projeto de construir um porto no meio do nada para levar mercadorias para a Europa. Um barco que vem do outro lado do mundo vai mesmo deixar mercadoria em Sines (que depois seguiria para o centro da Europa) quando pode levá-la diretamente a Rotterdam ou a outros portos da Europa Central. Sem dúvida.

Já agora, como é que o ‘pessoal do Norte’ deixou a Linha do Douro ao abandono? Que poder é que o ‘pessoal do Norte’ tem para que isso não aconteça? Lembro-lhe que direção da CP está em Lisboa. E mais não digo.

Obrigado pela visita. Volte sempre.

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