Progresso e gramática.

* Durante algum tempo discutiu-se entre a Linha do Campo Alegre e a Linha da Boavista, à procura da melhor hipótese para ‘descongestionar’ o troço ‘congestionadíssimo’ entre a Senhora da Hora e o Estádio do Dragão, através de uma linha a poente entre o centro do Porto e Matosinhos. Nunca alinhei na ideia de que existia um ‘congestionamento’ entre a Senhora da Hora e o Dragão (e, mesmo que existisse, isso não era necessariamente uma coisa má, mas antes um sinal de grande popularidade do metro do Porto). E construindo a tal ‘linha poente’, a ideia seria sempre a de trazer mais clientes para o metro e, assim, contribuir para esse tal ‘congestionamento’. Sempre preferi a Linha da Boavista por ser a mais simples e barata de construir, mas também reforcei sempre que num futuro próximo ambas as linhas irão estar naturalmente em funcionamento.

Durante parte da discussão da Linha do Campo Alegre, perdi o meu tempo a explicar que a linha projetada era em grande parte à superfície, o que se verificou ser verdade. Quando os partidários da Linha do Campo Alegre o perceberam, moveram mundos e fundos para que isto não acontecesse (incluindo criando uma comissão de acompanhamento). Contrariando o que seria lógico, a metro acedeu a enterrar a Linha em grande parte do percurso (incluindo numa via que ainda nem existe, a Avenida Nun’Álvares) e a deixá-la à superfície no cruzamento com elementos naturais (na ribeira da Granja e no Parque da Cidade). É óbvio que o cruzamento com a ribeira teria de ser feito à superfície; não digo o mesmo em relação ao Parque da Cidade. E o que dizer de enterrar o Metro na Rua de Diogo Botelho (suficientemente larga em grande parte do seu percurso), na Avenida Nun’Álvares (ainda por edificar e, por isso, de ‘largura suficiente’) e na Rua de Brito Capelo (que no seu troço ainda sem metro tem sensivelmente a mesma largura do troço que já tem metro)? A desculpa mais utilizada por presidentes de Juntas de Freguesia e comissões de acompanhamento foi de que, enterrando o metro, evitava-se conflitos com o trânsito automóvel. A mim tudo isto me soa mirabolante. Claro que nunca apoiaria que o metro cruzasse a VCI de nível, ou que passasse no centro histórico do Porto à superfície. Ambas são destituídas de sentido. Mas em todas as outras zonas em que a largura das vias o permite, por que não? O metro não foi pensado para favorecer o trânsito automóvel.

outrogajo

(projeto atual de expansão do metro do Porto)

Agora que os partidários da Linha do Campo Alegre conseguiram a sua linha (parcialmente) enterrada, entrou-se num novo nível de discussão. Já que foi descartada a hipótese de atravessar o Parque da Cidade no viaduto existente (sem qualquer razão válida, já que o viaduto foi de facto projetado para isso), agora discute-se um atravessamento à superfície, um rasgão que cortará o Parque em dois. No Estudo de Impacto Ambiental a hipótese túnel nem foi explorada (!?), e já que se concluiu que a passagem à superfície é a mais económica, a decisão parece tomada. Ou não. Agora a metro diz que é a Câmara que decide. Rui Rio prefere enterrado. Que confusão. O período de consulta pública acaba hoje, todas as sugestões são bem-vindas.

Paulo Pinho, que sustentava o plano original da segunda fase do metro, com uma linha circular bem desenhada, a passagem na Avenida da Boavista, etc., voltou à carga na defesa da sua bela-dama:

paulopinho

(proposta anterior, de Paulo Pinho)

Estou com ele nesta demanda.

* No prolongamento para sul do metro já ninguém rebate a construção de uma avenida paralela ao metro antes da sua chegada a Vila d’Este. Nem se criam comissões de acompanhamento.

*Novidades para este, na Linha de Gondomar 1.

* Noutra frente (norte), ainda não se verificaram mudanças de tempo de viagem entre a Póvoa e o Porto, mesmo depois da chegada dos tram-train rapidíssimos e mesmo depois dos novos horários. Agora fala-se de deficiências na sinalização, e um passarinho segredou-me ‘deficiências na rede elétrica’. Cá pela Póvoa e Vila continuamos à espera. Por razões de juventude dos veículos ou das tais falhas na rede elétrica, os tram-trains andam mal. Melhorias, para já, apenas no conforto e no aumento dos lugares disponíveis, o que se aplica a toda a rede, já que os veículos antigos que circulavam para a Póvoa são agora utilizados nas outras linhas, o que aumenta a capacidade instalada.

* Para terminar, uma notícia que me parece consensualmente positiva. O andante passa a poder acumular viagens de distâncias diferentes (Z2+Z6, por exemplo). Fica a faltar a introdução de viagens Z1 para o sistema tarifário do Grande Porto ir ao sítio.

Não se consegue fazer a vontade a todos. Nem Deus consegue. Por isso ele faz as coisas como entende e faz muito bem. Porque há sempre polémica

Fátima Portela, quando questionada sobre a nova localização proposta para o edifício da Câmara da Trofa.

Edifício em Alfama desaba parcialmente, realojando cinco pessoas

No Público?!?!

* Para provar que a Rave é gerida por mentecaptos, aqui está um pmf (perguntas mais frequentes, faq para os anglófonos) para me dar razão. Um exemplo:

RAVE

A lógica é consfrangedora, e isto supondo que foi escrito por adultos sem problemas mentais. Eles dizem que existe ‘apenas’ uma via ferroviária entre Porto e Lisboa; que esta está saturada; e que a ‘única’ solução é construir uma linha de luxo. Ora nem existe apenas uma linha entre Porto e Lisboa (como mostrarei nos próximos dias) nem construir uma linha nova pode ser considerado a ‘única solução’. Podem fazer como os suíços, que enfrentam problemas semelhantes não numa das linhas mas em parte da rede, muito bem ilustrado pelas meninas d’A Nossa Terrinha.

Para que os senhores da Rave percebam, eu explico. Se a brochura fizesse perguntas como ‘Afinal o Oeste vai ter uma estação?’ e respondesse ‘Sim. Apesar de a construção do aeroporto da Ota ter sido cancelada, a Região do Oeste manterá a estação, localizada em Rio Maior’, isto teria algum sentido. Mas quando perguntam coisas como ‘A exploração do serviço de Alta Velocidade será rentável?’, ao que respondem ‘Sim. As receitas previstas superam claramente os custos operacionais.’, está tudo dito. A sustentabilidade económica dum projeto pode bem acontecer. Ou não. O que distingue uns dos outros são os riscos inerentes. A rede de Altas Prestações pode correr bem. Ou não. Não se pode é dizer categoricamente que sim. É considerar os potenciais leitores potenciais ignorantes ou estúpidos.

* Em Ponte de Lima criaram uma petição contra a passagem do “TGV” no concelho. Concordo com o essencial: acho que Ponte de Lima devia estar ligada à rede ferroviária convencional; não acho que deva ser construída uma linha que cruza Ponte de Lima sem trazer mais que prejuízo para a população local e sem lá fazer uma estação. Notícia e notícia.

E convém não esquecer que um “TGV” é um comboio na França.

* E a Alta Velocidade, por mais exdrúxula que possa ser, alguma coisa de bom nos há de trazer. No caso da AV alentejana, foi introduzido um sistema australiano que permite o varrimento digital dos terrenos, à procura das melhores soluções de trajeto entre milhares disponíveis. Poupa-se dinheiro e, mais importante que isso, o território.

Ainda ninguém (incluindo o jornalista que escreveu o artigo, Carlos Cipriano) explicou porquê ‘uma poupança de 900 milhões de euros’ num projeto que mantém a estação a sete quilómetros de Évora.

(o senhor do blogue mais atrás esqueceu-se de referir que o texto era do Público. acontece)

Numa conferência de imprensa realizada hoje em Lisboa pela Plataforma Cidadania Casamento, que defende um referendo ao casamento entre homossexuais, o general lembrou que esta carta “teve de ser feita à pressa”, tal como o diploma aprovado este mês no parlamento, que “carece de legitimidade alargada”, lê-se no documento assinado por nove generais, três almirantes, dez coronéis, um capitão mor, um tenente-coronel e um comandante.

No Público.

aqui grande

Um esclarecimento: sou contra o projeto da rede de altas prestações em Portugal. Passa-se de uma rede ferroviária anacrónica e ineficiente para duas redes, uma antiga e outra ultramoderna, sem ligações óbvias entre si nem com o centro das concentrações urbanas que pretendem servir.

Das quatro linhas previstas no acordo com o Estado espanhol (Faro-Huelva, Porto-Vigo, Aveiro-Salamanca e Lisboa-Madrid), o Governo português pretende construir apenas duas (Porto-Vigo e Lisboa-Madrid), e neste cenário de crise económica já deu a entender que a única a ser construída será a linha Lisboa-Madrid. Para além de o corredor (Porto)-Aveiro-Salamanca-Madrid ter maior potencial de utilizadores que o corredor Lisboa-Madrid (algo que é admitido pela própria Rave), o Governo optou pelo corredor sul, algo totalmente excêntrico à mega-região Setúbal-Corunha e que não faz mais que ligar as duas capitais, sem qualquer interesse para o resto do país.

A referida linha (Lx-Madrid) não irá suportar mercadorias. Terá apenas uma terceira linha junto a si em bitola ibérica (!?) que, vinda de Sines, ligará este Porto a Elvas e a Madrid. E será por Madrid que morrerão os nossos sonhos europeus. As composições vindas de Portugal (Lisboa) farão término lá, e nem as mercadorias descarregadas em Sines terão um canal de descarga para a Europa, pois a linha a construir entre Sines e Madrid em bitola ibérica só lhe permitirá alcançar Irun, nos Pirinéus.

Bastaria uma linha a ligar à Meseta, que nem necessitaria da Alta Velocidade para ser eficiente. Na dúvida, a única a construir seria a Linha Aveiro-Salamanca, mista de passageiros e mercadorias, que permitiria o escoamento das mercadorias de todo o país e de passageiros de todo o arco Atlântico entre Viana e Setúbal. Para Madrid e para a Europa.

Também de referir outra injustiça feita ao norte, e isto se as linhas Porto-Lx e Porto-Vigo forem realmente construídas. A norte do Douro, ao contrário das linhas Porto-Lx e Lx-Madrid, a linha será de Velocidade Elevada, o que significa velocidades até 250 km/h. A poupança do governo central começou aqui, na definição das características da via. Depois decidiram que apenas metade da linha seria construída (Braga-Valença), sendo a ligação Braga-Porto (uma das zonas com maior densidade populacional do país) feita pela linha atual, sem passar no aeroporto. A terceira poupança consistiu na opção de ter apenas passageiros na ligação entre Porto e Vigo. O que significa que as mercadorias são atiradas para a Linha do Minho, e os portos do norte continuarão dependentes de uma linha em bitola ibérica.

Via A Linha é Tua.

final

Mais uma infografia a juntar ao monte ‘carago andam a tramar o norte’. Neste caso disseco a distribuição do PIDDAC 2010 em função das NUT II (de referir que estes montantes se referem apenas aos projetos PIDDAC que se restringem às fronteiras das NUT II, +- 51% do valor total).

aqui grande

Nota:
PIDDAC – Programa de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Administração Central
“Constitui o quadro de referência da despesa pública de investimento realizada pela Administração Central (incluindo despesas de apoio ao investimento de outros sectores institucionais através de subsídios e transferências designadamente no âmbito dos “sistemas de incentivos” e de esquemas de colaboração com entidades exteriores à Administração Central). O PIDDAC é descrito através do mapa XV do Orçamento do Estado, que detalha de forma regionalizada os respectivos programas e medidas orçamentais, articulados com as GOP e com o QCA III, evidenciando os encargos plurianuais e as fontes de financiamento. As principais fontes de financiamento são o próprio Orçamento de Estado (capítulo 50.º), a comparticipação comunitária, e os recursos próprios dos fundos e serviços autónomos, incluindo não só o auto-financiamento mas também o crédito contratado directamente pelas entidades. Vide: Lei n.º 91/2001, de 20 de Agosto, 29.º”

Image-Languages-Europe

Belíssimo mapa (simplificado) da realidade linguística deste lado dos Urales. Os pontilhados representam zonas de substituição linguística, em que a língua oficial está a sobrepôr-se à língua histórica do território.

A azul estão as línguas romances, nos vermelhos-laranjas as eslavas, a verde as germânicas e a castanho as fino-húngricas. O galego, como é óbvio, tem a mesma cor do português, mas encontra-se em perda no território do Estado Espanhol.

* Por norma não inverto o ónus da prova quando uma notícia contém ‘nova ferrovia’ nos seus conteúdos. Mas uma ‘nova ferrovia’ que «retalha aldeias, arranca sete mil sobreiros» não é flor que se cheire de ânimo leve. Felizmente, o Governo decidiu reconsiderar a construção da ligação Sines – Elvas em caminho-de-ferro. Entre outras coisas, utilizando «o ramal já existente das Ermidas». Fazer uma linha nova onde (em parte) já existe uma linha não é assim especialmente inteligente.

* Tanto rio até à histeria com declarações de membros do Ministério das Obras Públicas Transportes e Comunicações como me vejo obrigado a concordar com algumas dessas declarações. O Secretário de Estado dos Transportes diz que

No dia em que se comemoraram 50 anos do Metro de Lisboa, o secretário de Estado dos Transportes, Carlos Correia Fonseca, defendeu o alargamento da rede dentro da cidade em detrimento da expansão para a periferia.

e eu aplaudo. O problema é que logo a seguir diz que

Como tal, disse que se afigura importante “rever o plano de investimentos da empresa, privilegiando a densificação da rede no centro da cidade e as soluções de articulação entre modos de transporte, sem esquecer, é claro, a coroa suburbana, para a qual os autocarros ou os metros de superfície deverão constituir resposta adequada”.

Ai. O metro de superfície ao barulho outra vez. E nada sobre ferrovia convencional. Ainda há seis meses se dizia isto sobre as expansões para a periferia de Lx. Em que ficamos, metro ligeiro ou metro pesado?

* Calendariza-se para finais de Março ou Abril a reabertura da Linha do Douro entre Foz-Tua e o Pocinho, ainda com restrições de velocidade até Setembro. Já era tempo, fónix.

A reabertura da linha até Barca d’Alva, que parecia mentira (promessa de Ana Paula Vitorino dum investimento de 25 milhões de euros), é afinal mesmo mentira.

* Continua a incrivelmente perfeita e definitivamente corajosa formulação de dizer que, com a crise económica e tendo de se tomar decisões, a única linha de AV/VA a construir é a Lisboa-Madrid. Quem faz estas afirmações ou faz parte do Governo atual ou de Governos futuros, convém relembrar. Com ou sem estudos encomendados à mistura.

Na dúvida, qual construir? A ligação de Lisboa a este (Lx-Madrid) ou a norte (Lx-Corunha)? Uma linha a cruzar os territórios menos ocupados da Península ou uma linha a cruzar longitudinalmente a 33ª mega-região do mundo? A linha que apenas garante 1,9 milhões de passageiros / ano ou a linha que só no troço Lx-Porto garante 4,1 milhões? A linha de luxo que, excetuando linhas novas na China e no seu troço português, tem a velocidade média mais alta do mundo ou a linha que cruza a fronteira mais utilizada do país (Tui-Valença)?

Bom, basta. Sou contra a Alta Velocidade num país que nem uma rede convencional tem. Na Alemanha as linhas rápidas foram primeiro construídas na zona mais populosa e com mais indústria / criação de riqueza (oeste-sul) e só depois chegaram à capital. Em Portugal, o direto inverso.

* No Público falam de um ‘labiríntico tarifário da CP’. Não sei a que se referem. Um labirinto tem por regra uma entrada e uma saída.

Com um total de 102 votantes, a votação do Título do Ano referente ao período 2008 / 2009 foi encerrada, com os seguintes resultados:

O vencedor foi

Braga: esfaqueamento mortal adiado para 13 Novembro

(44%, 45 votos)

seguido de

Pastor atacado por um javali hospitalizado

(40%, 41 votos)

e de

Morreu intoxicado por fogareiro a jogar Playstation

(23%, 23 votos)

Para o ano há mais. Tijei.

Tem um encanto tão fluido que parece inscrever-se com a mesma naturalidade num descampado ou no coração de uma zona urbanana.

LMQ, no Público, falando sobre o Mercado do Bom Sucesso.

Oposição entregou 300 buracos à Câmara

No JN.

“Neste momento entendemos que não há necessidade de lançar mais concursos e fazer novas adjudicações no domínio da rede rodoviária. Entendemos que o que havia a fazer no essencial está feito. Acabou! Não vamos avançar com mais, o que está em curso está em curso, é para acabar, mas acabou!”

Teixeira dos Santos, via A Nossa Terrinha

Pedreiros do vale verde numa terra de cabritos

No JN.