Progresso e gramática.

Eusébio, na Única:

Para tirar a carta, tive de pedir autorização à minha mãe. “Vai tirar a carta poquê? Não há aí machimbombo?”

Santa mãe.

No JN.

A Câmara de Torres Vedras anunciou, esta quinta-feira, Dia Europeu sem Carros, que reduziu para 30 km/hora a velocidade rodoviária junto às escolas da cidade, para incentivar a circulação de bicicletas ou a pé pelos cidadãos.

“Reduzimos a velocidade para 30 quilómetros em zonas de grande circulação automóvel e de pessoas por se localizarem junto a escolas e para dar maior segurança às pessoas”, afirmou à agência Lusa o vice-presidente da câmara, Carlos Bernardes.

A autarquia acaba de criar um primeiro circuito para bicicletas, dentro da cidade que, durante o percurso entre as escolas secundárias São Gonçalo e Henriques Nogueira, na maior parte do trajecto é coincidente com a via de circulação rodoviária ou com passeios.

“A câmara não criou um espaço específico para a ciclovia, mas sem grandes investimentos fez coincidi-la com as vias de circulação automóvel ou de peões, onde há passeios com mais de dois metros de largura”, explicou o autarca.

Medidas de baixo custo com máximo retorno? Olhem para Torres Vedras. E para Lisboa, já agora:

Sete bairros da capital, entretanto, vão passar a ser zonas 30, isto é, área onde a velocidade máxima de circulação será de 30 quilómetros por hora. O conceito já existe noutras cidades europeias. Em Lisboa foi experimentado, até agora, apenas no Bairro Azul (perto do El Corte Inglés), mas de forma incompleta. “Não estamos a falar só de sinais de trânsito”, explica o vereador Nunes da Silva. “Isso seria lançar poeira para os olhos. Vamos estreitar as faixas de rodagem, apertar as curvas, sobreelevar as passadeiras, arrumar o estacionamento e deixar espaços para jardins”.

(negrito meu)

No Diário Digital:

O presidente do Automóvel Clube de Portugal (ACP) afirmou hoje que o presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, só faz «asneira» no que toca à mobilidade na cidade e, como tal, devia sair da autarquia.
«A cidade de Lisboa é liderada por um presidente e por um vice-presidente que têm uma obsessão, que nunca vão conseguir na vida, que é pôr todos os portugueses a andar de bicicleta. Tudo o que puderem destruir em mobilidade em Lisboa vão fazê-lo» disse hoje Carlos Barbosa.

Em declarações à Lusa, o presidente do ACP disse que aqueles autarcas «não se lembram que esta é uma cidade com sete colinas» e «que a mobilidade que gostariam de ter não é possível».

Carlos Barbosa enumerou os 500 lugares de estacionamento que a câmara tirou da Avenida Duque D’Ávila para fazer uma ciclovia “que nunca ninguém vai utilizar” como uma das más opções da autarquia.

A resposta, no Público:

A MUBi, associação pela mobilidade urbana de bicicleta, “repudia totalmente” a posição do presidente do Automóvel Clube de Portugal (ACP) nas críticas que fez ao presidente da Câmara de Lisboa acerca das ciclovias na cidade.

“Apesar de Lisboa não ter ainda entrado na nova era da mobilidade onde as pessoas são o focus, onde os transportes públicos, os peões e as bicicletas têm um lugar mais central, tem havido algum esforço em prol da utilização da bicicleta na cidade”, indica a associação em comunicado.

Quanto às sete colinas de Lisboa, a MUBi relembra que as bicicletas “têm evoluído e há modelos adequados a todo o tipo de utilização”.

Não censuro Carlos Barbosa. Ele é presidente de um lóbi pró-automóvel e é pago para fazer esse lóbi. O que para mim é preocupante é achar-se que a guerra é entre carros e ciclistas. Nada mais errado – a guerra é entre os carros e os não-carros: peões, ciclistas, utilizadores de transportes públicos, etc. Tem de haver lugar para todos.

Se eu fosse sócio do ACP questionaria era o facto de Carlos Barbosa só se pronunciar em questões relativas a Lisboa.

Com “investimentos reduzidos” seria possível transformar o Porto e as cidades limítrofes em zonas bastante mais “cicláveis”, através da criação de zonas de aparcamento e caixas para bicicletas nos semáforos, por exemplo, defende o ciclista Miguel Barbot, envolvido no lançamento de um grupo de trabalho para sensibilizar os poderes públicos.

“Estou a falar de investimentos de baixo custo: sinais a avisar os automobilistas de que andam ciclistas na cidade, zonas de aparcamento, caixas para as bicicletas pararem nos semáforos… uma série de coisas que melhorariam a ciclabilidade da cidade”, descreve.

Para sensibilizar os poderes públicos, o consultor de 35 anos resolveu cruzar os vários percursos usados pela comunidade de ciclistas urbanos da zona do Porto para perceber quais as áreas de “maior pressão”.

O consultor alerta que o Porto é uma cidade “amiga” das bicicletas e que até o clima ajuda.

“Tirando as subidas de ligação da cota do rio à cota superior, quase não há grandes declives. E no Porto temos um clima quase ideal. Não chove assim tanto, não faz muito calor e também não há períodos de frio intenso”, observa, garantindo que no último inverno apenas trocou a bicicleta pelo autocarro “durante 3 dias”.

“Muitas pessoas tentam justificar a sua preguiça criticando a cidade pela sua falta de ciclovias ou declives excessivos, mas acho que até é simpática para pedalar. Setenta por cento da cidade é quase plana, e com bicicletas com mudanças é simples vencer as zonas com mais declives. Muitas pessoas associam a bicicleta a desporto, mas para a usar como forma de transporte devemos fazê-lo de forma a minimizar o esforço e tornar o percurso o mais suave possível”.

A “grande revolução” que melhoraria a vida aos ciclistas seria “uma eficaz actualização e adaptação do Código da Estrada à utilização das bicicletas”.

No Porto24.

A bicicleta mudou a forma como eles encaram a cidade

Nas ruas do Porto, vêem-se cada vez mais ciclistas. Não é apenas por ser Verão, quem usa este meio de transporte diz que o número de pessoas que escolhe a bicicleta para se locomover na cidade está a aumentar.

Nuno Lopes, que vive na Póvoa de Varzim mas se desloca ao Porto frequentemente conjugando o metro e a bicicleta, diz que muitas pessoas ficam “espantadas” por utilizar este meio de transporte. “Eu percebo o espanto, não percebo é pessoas que tentam me convencer a não andar”, diz o arquitecto.

O resto da reportagem no Sapo Notícias.

A mobilidade é uma necessidade dos dias que correm. O que mais me apoquenta é ver (já) várias gerações de políticos a negarem-nos a multiplicidade de opções e atirarem-nos para a monomodalidade: o carro. Que é coisa que me aborrece. Elenco:

pedonal – todas as deslocações na Póvoa em dia de chuva e nos meus destinos (depois de lá chegar noutra modalidade de transporte);

bicicleta – todas as deslocações dentro da Póvoa; parte das deslocações a Vila do Conde (tirando dias de chuva e à noite); parte das deslocações dentro do Porto (transportando a bicicleta no metro);

ferroviário – de metro até ao Porto; de metro dentro do Porto; de comboio para o Sul; há uns anos, Linha do Douro até Foz Côa, onde trabalhei; por mais de uma vez fui à Galiza de comboio (viagem supermultimodal);

rodoviário (autocarro) – por vezes faço experiências (infrutíferas) para me deslocar para Este e Norte da Póvoa de autocarro; no Porto, nos STCP;

avião – estrangeiro, para lá de Barcelona;

carro – tudo o resto.

Democracia é também variedade de opções. Na mobilidade, cada vez mais somos uma sociedade num só sentido. Tenho a sorte de ter um carro, assim posso ver os meus amigos amiúde, namorar e trabalhar no Porto. A região está toda ela montada para ser facilmente acessível de carro – todas as outras modalidades de transporte exigem um planeamento aturado, e parte das vezes retorna-se ao carro como a única possibilidade de deslocação.

A bicicleta, com ou sem a integração ferroviária, é o meu modo de transporte preferencial. Na parte de trás montei-lhe uma caixa da fruta de plástico que me serve de mala para compras mais volumosas. A campainha é essencial. Ando a alternar entre luzes da frente e de trás, sempre a partirem-se e a soltarem-se. Tenho de lhe adicionar mais refletores. Não uso capacete.

Conduzo uma gazelle, bicicleta sem mudanças, bastante pesada. Uso-a na Póvoa, terra plana, e pelos declives do Porto. Tenho 30 anos, sempre fui fraco atleta, mas nunca me senti tão saudável e tão capaz fisicamente.

Texto escrito ontem à noitinha a pedido do Herr Barbot, gajo tão ou mais maluco do que eu.

* Ao invés das faraónicas ciclovias de lazer promovidas pelas Câmaras Municipais portuguesas, Zaragoza faz o exato contrário: gasta pouco (300.000 euros), mas poderá muito bem conseguir uma promoção do uso quotidiano da bicicleta em meio urbano substancialmente superior à dos seus congéneres portugueses. Porque construir ‘ciclovias de lazer’ ao longo das marginais, se não serve para estimular o uso quotidiano da bicicleta, tem o mesmo sentido que promover ginásios ou aulas de ginástica ao ar livre. Se o único objetivo é a promoção de uma prática desportiva saudável, há maneiras bem mais baratas de o fazer.

O que a notícia (aqui, aqui ou aqui) dá a entender é que os responsáveis da capital Aragonesa têm mais cabeça e mais tino na bolsa que os de cá. As entidades municipais têm vindo a promover a criação de uma rede de vias cicláveis na cidade, mas enquanto os ciclistas não surgem, decidiram reduzir a velocidade máxima de algumas vias para 30 km/h. Isto acontece em vias de sentido único, em parte das vias secundárias e na faixa da direita de outras vias secundárias com várias faixas de circulação que ainda não tenham faixa para bicicletas. O objetivo é simples: tornar as ruas mais amigáveis para peões e ciclistas. Menos infraestrutura, mais eficácia – é isso que fazem os da “Europa civilizada”.

* Tiro pela primeira vez em muito tempo o meu chapéu a Rui Rio:

O estacionamento ilegal nas ruas do Porto estará sob a mira da Câmara nos próximos três anos. O Município pretende rebocar, nesse período, mais de 40 mil automóveis e camiões e, para isso, vai procurar ajuda especializada no mercado dos reboques privados.

Mais aqui, ali e acolá (não se iludam pela quantidade, é tudo JN).

* Esta notícia em relação a Lisboa revela o mesmo problema, neste caso com carros impedindo a circulação dos elétricos. Uma boa notícia é a revisão das ‘coroas de estacionamento’, que permitem a diferenciação dos preços e tempos no estacionamento consoante a zona de Lisboa. Algo que aprendi no curso, e já lá vão bastantes anos: o estacionamento deve encarecer quando mais próximo do centro nos encontramos, assim como deve diminuir o tempo de estadia permitido.

* Tirei o meu chapéu a Rui Rio? Volto a colocá-lo na cabeça. A sua querida SRU, que tem tido um papel questionável na reabilitação do centro histórico do Porto, propõe um túnel de 957 metros de extensão para resolver ‘problemas de estacionamento’, entre a Rua das Flores e a Cordoaria. Na Póvoa fizeram o mesmo, com a mesma extensão, com semelhantes intenções. O estacionamento selvagem à superfície continua, o parque está invariavelmente vazio e a vontade dos poveiros de utilizar o carro para ir ao centro manteve-se (ou aumentou mesmo). Por favor, senhores da SRU, mais seriedade e profissionalismo e menos mediatismo nos vossos projetos.

* A Escola Básica Frei Caetano Brandão, em Braga, decidiu pôr os seus alunos a pedalar para a escola. Temos aqui uma boa ideia numa das piores cidades da região para o efeito.

O elevado número de rotundas e passagens aéreas bem como a grande quantidade de veículos que circulam nas imediações da Escola Básica do 2º e 3º Ciclos Frei Caetano Brandão vão atrasar a concretização do projecto “Sempre a pedalar, o ar vai ser melhor”.

(daqui)

O que Mesquita Machado conseguiu fazer nas suas várias décadas de reinado em Braga foi criar um paraíso para os peões no centro (digo ‘paraíso’ como exagero, porque o centro não é perfeito) e um inferno para os peões fora deste. Fora do centro histórico mandam os carros. Imagino que a taxa de motorização dos bracarenses nunca foi tão alta como agora.

Voltando à escola, esperam-se novas iniciativas semelhantes. E que Mesquita Machado e seus acompanhantes sejam depostos e respondam por gestão danosa.

Passei os olhos pelas wikis sobre democracia e não encontrei o que me interessava. Queria uma definição da “salvaguarda da diferença” na sociedade, mas a minha paciência não chegou para tanto. Isto porque defendo uma sociedade em que a diferença seja protegida (o que é ligeiramente diferente da ideia de alguns conservadores que acham que esta sociedade estimula grupos com comportamentos “divergentes”, como homossexuais ou artistas). A partir do momento que assumimos que diferentes somos todos, e “normal” é apenas a parte dos nossos comportamentos mais partilhada por todos, percebe-se que a sociedade que salvaguarda a diferença protege-nos afinal a todos.

Tanta introdução para tão pequena estória. Descia eu a Sacra Família pelo habitual sentido proibido quando um mui respeitável condutor acelerou à vista de uma família que atravessava a rua. Visão não de todo invulgar, concordo. São as ruas de Portugal. A família correu e tudo acabou em bem. Ao ver-me a mim, amedrontadamente encostado aos carros à minha esquerda, com as mãos emocionalmente aferradas ao volante da Gazelle e a revolta à solta, decidiu tentar mais uma “simulação de atropelamento”, método tão usual em prisões geridas por estado-unidenses. É certo que não me atropelou (simulou corretamente o atropelamento), mas manteve-me indignado por largas semanas.

Já te disse que andar de bicicleta é perigoso, repetiu o meu previdente pai. Sei bem que é perigoso. Afinal, respirar é perigoso. Se não o fizermos com método e afinco, morremos. E a frase do meu pai, apesar de recorrente, sobreviveu. Ora, vivemos (sobrevivemos) numa sociedade movida a automóvel, qual gasóleo não combustível. As alternativas praticáveis (pé, bicicleta, transporte público) medram à sombra do carro, até que algum dia possam assumir-se como maioritárias e hegemónicas, como nunca deveriam ter deixado de ser. Os problemas que estes modos de mobilidade enfrentam são os usuais: passeios estreitos para os peões (não é que concorde com a ideia de “passeio”, mas não é para já essa crónica), falta de lugar na via pública para a bicicleta, falta de investimento e de planeamento estratégico nos transportes públicos. Estes são, grosso modo, os obstáculos que cada um destes meios de locomoção tem de enfrentar. É claro que a loucura não tem lugar neste inventário.

Especificamente na ciclo-mobilidade, há uma vintena de fatores que desmobilizam qualquer utilizador de bicicletas a fazê-lo no dia-a-dia, como a pavimentação não adequada, falta de preparação dos condutores de automóveis, falta de adequação do desenho urbano às bicicletas, etc. A loucura dos condutores, não.

Isto é como dizer que não se pode praticar natação porque o nosso treinador pode querer afogar-nos intencionalmente. As ruas são nossas, são a nossa polis. Tomemo-las.

publicado há uns meses no blogue de antigamente

* Mais uma associação – MUBi, Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta, e mais uma pedra na construção de cidades mais igualitárias e mais acessíveis para tod@s. À semelhança da FPCUB – Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta e da ACA-M – Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados, esta é mais uma associação sediada em Lisboa. O que não lhes tira valor, mas que normalmente significa ações e campanhas regionais e locais centradas em Lisboa, com pretenso caráter nacional por estarem sediadas na capital. Ainda assim, o nascimento desta associação é uma boa notícia.

* Vítor Meirinhos, membro da ACA-M e investigador da Universidade Nova de Lisboa, diz qual a solução para a diminuição dos atropelamentos em meio urbano. Sintético e óbvio:

O cenário é complicado. Mas há medidas a tomar: em primeiro lugar, a temporização dos semáforos devia ser superior, tendo em conta que os idosos e as crianças andam mais devagar e são os mais afectados. Depois, obrigar os veículos a circular a baixa velocidade nas zonas onde há passadeiras.

No Público.

No Jornal de Notícias um especialista belga fala sobre os atravessamentos pedonais na rua de Santa Catarina, no Porto:

O especialista comparou a realidade portuense à da artéria pedonal Skippergata, em Oslo, na Noruega, e defende a adopção do exemplo norueguês (ler caixa). Nos dois locais, os peões são a maioria dos utentes do cruzamento (78% no Porto e 82% em Oslo). Em Santa Catarina, a espera ultrapassa os três minutos. Em Skippergata, quem anda a pé tem de aguardar 25 segundos. Constatou-se que 77% dos peões noruegueses só atravessaram o cruzamento com sinal verde. No Porto, sucede o inverso: 70% cruzam a rua com vermelho. Curioso é que, em Portugal, esse comportamento é proibido, ao contrário do que acontece na Noruega. Certo de que o favorecimento do automóvel é “inaceitável” numa via pedonal, Geert van Waeg crê que a atitude dos peões mudará se os tempos de espera diminuírem.

Tudo isto na semana em que o Público fez manchete com o desrespeito dos tempos de atravessamento dos peões nos semáforos. Espero que não sejam notícias isoladas mas sim algo de revolucionário a acontecer no cérebro dos portugueses.

* Mais uma petição, neste caso para a “Alteração do Código da Estrada reforçando direitos de ciclistas e peões”. Não é que esteja mal esta petição, não é esse o caso. Mas acaba por não concretizar o quer que seja, ao contrário deste projeto-lei do Bloco de Esquerda, apresentado (?) no Parlamento a 4 de Julho de 2008. Não sei o que aconteceu a esta proposta, bem fundamentada e essencial para o estímulo do uso pedonal e ciclável das cidades.

* A blogosfera portuguesa vai crescendo em qualidade e profissionalismo – A Nossa Terrinha e Menos Um Carro são apenas dois exemplos de blogues que pugnam por cidades mais ecológicas e por um ordenamento mais capaz. Bem hajam.

*E, já agora, um tema que já todos trataram – e só não é Título do Ano porque não calhou:

Fernando Ruas quer aumentar limite de velocidade em avenida onde já foi multado

No Público.

Já dizia o ditado, um mau jornalista dá-te coceira no cu (ditado que, curiosamente, não existe). Notícia no Público sobre o Entroncamento. Lê-se o título e, uau!

Entroncamento acelera construção de rede de ciclovias

Fica-se mesmo a pensar que o Entroncamento irá ser o paraíso das ciclovias. Lê-se mais um pouco e, uh?,

Até ao momento, o concelho dispõe de 2,2 quilómetros de ciclovia.

e que

A rede das ciclovias do Entroncamento terá, quando concluída, uma extensão global de cerca de quatro quilómetros

e conclui-se que a mísera (2.2 qms!) rede de ciclovias atual do Entroncamento nem sequer duplicará. Bela notícia, portanto. Ah, e

A médio prazo será possível atravessar a cidade de um extremo ao outro e aceder às principais zonas de lazer sem sair das vias dedicadas às bicicletas e, nalguns troços, também a peões.

Ciclovias de lazer. Raio de invenção.

(só a ciclovia entre o Estádio do Varzim e o forte na Foz do Ave tem mais de 5 qms, e nem é assim especialmente comprida)

* Independentemente de os projetos estarem bem ou mal feitos, a implantação de ciclovias em Portugal irá ser assim durante muitos anos. Até que se perceba que dar direitos aos utilizadores de bicicletas significa (naturalmente) tirar direitos aos automobilistas.

* O meu ligeiríssimo comentário às eleições autárquicas acabadas de realizar:

-Hoje em dia já toda a gente tem carro, as pessoas já não precisam de transportes públicos e isso é um sinal de que o concelho está desenvolvido.

É este género de trogloditas que irão mandar nas nossas câmaras durante os próximos quatro anos. Via menos1carro.

* Brutal esta troca de correio-e entre Pedro Marinho e a CMP. Sucinto, moderno e realista – todo o que são boas práticas na implantação de vias cicláveis em meio urbano está aqui. Houvesse mais gente a pensar igual e haveria real progresso social.

*É anunciada pela enésima vez a reabertura da ligação ferroviária entre o Pocinho e Barca d’Alva. Ainda sem garantias de reabertura até Salamanca, e apenas para turismo, para já. A boa notícia é de que a intervenção prevista implica “travessas de betão, carris soldados e, sobretudo, o reforço e consolidação dos taludes, túneis e pontes”. Que usem travessas de betão polivalentes, já que a REFER vai comprar 300 mil travessas de dupla fixação.

É um investimento de luxo, bastante superior ao estritamente necessário para voltar a pôr os comboios sobre os carris entre Pocinho e Barca de Alva. Com os 25 milhões de euros anteontem anunciados pela secretária de Estado dos Transportes, mais do que reabrir a linha, trata-se de construir uma nova no traçado da anterior, com travessas de betão, carris soldados e, sobretudo, o reforço e consolidação dos taludes, túneis e pontes. Tudo isto permitirá velocidades da ordem dos 80 km/hora, o que é bastante mais do que os 30 km/hora a que os comboios circulavam quando a linha foi encerrada. Mais: o troço reaberto ficará até em melhores condições do que a actual linha do Douro entre a Régua e o Pocinho.

Faz sentido então a pergunta: para quê gastar tanto dinheiro, quando se prevê apenas uma exploração turística, certamente não diária, e para composições lentas onde o objectivo é a fruição da viagem? Porque existe a “ambição” de que a linha do Douro volte a ter passageiros e também mercadorias até à fronteira espanhola, e para além dela se Espanha decidire entretanto reabrir a sua parte entre La Fregeneda e La Fuente de San Esteban (Salamanca). E, se assim for, este eixo ferroviário poderá ser uma “ligação à Europa”, como referiu ontem ao PÚBLICO a secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino.

(…)

Se não houver interessadas, restará à CP encontrar parceiros e efectuar o serviço turístico sozinha. Para já a empresa não está empenhada na exploração comercial daquele troço devido à desertificação da região e ao facto de as estações se situarem longe das localidades que servem (Foz Côa, Castelo Melhor e Almendra). Mas, tendo em conta o previsível bom estado em que ficará a infra-estrutura após o investimento de 25 milhões de euros, os custos de prolongar os comboios regulares do Pocinho a Barca de Alva seriam quase marginais.

O PÚBLICO fez as contas para saber quanto custaria à CP uma viagem de ida e volta no troço a reabrir com uma automotora diesel. Com base no directório de rede da Refer, a CP teria de pagar 101,36 euros de taxa de uso (portagem ferroviária), mais 45 euros de combustível, 20 euros para um operador de circulação e 18 cêntimos pela utilização da estação de Barca de Alva, o que perfaz 166,54 euros por cada comboio. Se cada bilhete de ida e volta custasse 4 euros, a transportadora pública necessitaria de ter um mínimo de 42 passageiros por comboio, que é um valor muito acima da média dos que circulam entre Régua e Pocinho.

Há que ter em conta, porém, que com uma linha nova os tempos de percurso seriam inferiores e, com boas ligações à Régua e ao Porto, a linha do Douro ganharia competitividade face à actual alternativa rodoviária. É que, em 1987, quando a linha foi encerrada, de Barca de Alva ao Porto demorava-se 5 horas e 39 minutos, mas com a reposição do troço em falta e as obras de modernização previstas entre Caíde e Marco, a mesma viagem poderá ser feita em 3 horas e 20 minutos.

No Público.

* Mais a montante no rio, anunciam-se 70 milhões de euros em investimento. A duplicação entre Caíde e o Marco fica adiada, mas para já moderniza-se e eletrifica-se:

(…)

O investimento é avultado, mas esgota-se nos 14,8 quilómetros de linha do Douro entre Caíde e o Marco. São cerca de 4,7 milhões de euros por quilómetro. Um investimento para garantir melhores tempos de percurso e maior segurança para os passageiros e para quem atravessa a via férrea.

“Esta intervenção inclui pequenas rectificações do traçado, a renovação integral da via, a sua electrificação, a remodelação das estações de Vila Meã, Livração e Marco de Canaveses e dos apeadeiros de Oliveira e Recezinhos, a construção de interfaces rodoferroviários, a beneficiação dos túneis de Caíde (1085 metros), Gaviara (258 metros) e Campainha (228 metros) e a supressão das passagens de nível ainda existentes”, sintetiza a Refer.

(…)

A Refer anuncia, ainda, que a modernização daquele troço também passa pela sinalização electrónica, o que “contribuirá para a optimização da oferta do transporte ferroviário, aumentando a sua capacidade, fiabilidade e segurança”.

No JN.

* Ainda mais a montante, eis que chega a Linha de Leixões:

Os comboios de passageiros começam a circular na linha de Leixões na próxima semana, anunciou, ontem, quinta-feira, a secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino, durante a sessão de apresentção dos novos veículos da Metro do Porto.

As composições vão fazer a ligação entre as estações de Ermesinde (Valongo) e de Leça do Balio (Matosinhos), com paragem em S. Gemil (Maia) e S. Mamede de Infesta (Matosinhos). No início de Julho passado, a Refer adjudicou a renovação das plataformas, por 476 mil euros. A viagem entre Ermesinde e Leça do Balio deverá demorar 16 minutos. Em 2010, as comboios deverão chegar a Leixões, sendo que Ana Paula Vitorino reiterou que o objectivo é estender a linha, no outro extremo, até Campanhã (Porto).

(…)

No JN.

*E, virando para norte, começam os tram-train a bombar:

Para as dezenas de pessoas que assistiram ontem, na estação da Trindade, à partida do tram-train na sua viagem de apresentação até Pedras Rubras, este parecia um veículo igual aos outros. Mas as novas composições do metro do Porto são, afinal, mais rápidas, mais potentes e mais confortáveis. Rápidas porque podem chegar aos 100 quilómetros por hora, ao contrário dos veículos actuais, que não passam dos 80, mais potentes porque podem acelerar mais depressa e mais confortáveis porque vão ter capacidade para mais 32 lugares, dos quais 20 sentados.

Na prática, tudo isto se traduz numa redução da viagem de dez minutos entre a Póvoa e a Trindade e num maior número de passageiros mais satisfeitos por viajarem sentados.

Mas, para a Metro do Porto, as vantagens do tram-train são-no sobretudo ao nível da exploração. As novas composições estão particularmente vocacionadas para fazer serviço suburbano, realizando o serviço expresso do Porto à Póvoa e vão permitir libertar os outros veículos para o serviço urbano, reforçando a oferta actual e, sobretudo, dando uma grande capacidade à empresa para responder a picos de procura quando há grandes eventos na cidade.

E quando começam a funcionar? Ricardo Fonseca, presidente da Metro do Porto, não quis comprometer-se com uma data precisa. “Em Outubro”, disse. E explicou que é necessário ultimar os ensaios que têm vindo a ser feitos, não só sobre a adequação do material à via como a própria sinalização que agora deverá estar adaptada a uma maior velocidade.

O PÚBLICO apurou que estes trabalhos se atrasaram e que desde há vários meses que existem tram-trains em número suficiente para o o serviço. Neste momento, dos 30 veículos encomendados, 19 já estão parqueados em Guifões, devendo os restantes ser entregues pelo fabricante Bombardier até ao fim do ano. O investimento foi de 113,5 milhões de euros.

(…)

Com uma frota de 102 veículos (72 eléctricos e 30 tram-trains), a Metro do Porto não precisa de mais material circulante até 2015, ano em que, segundo Ricardo Fonseca, serão adquiridos mais 18 veículos. Mas, para já, está tudo preparado para assegurar os serviços da segunda fase do plano de expansão do metro que a secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino, não deixou de anunciar e que representa um investimento de 1200 milhões de euros.

E a Trofa, finalmente:

Foi anunciada a construção, aproveitando o traçado da via-férrea da antiga linha da Trindade até à Trofa, de uma nova linha que vai receber os passageiros da CP vindos de Viana, Braga ou Guimarães, que poderão logo ali apanhar o metro para o centro da Invicta sem passar por Campanhã.

No Público.

*Em Lisboa, o metro acabou de medrar mais um poucochinho – apesar de tudo, uma ligação importantíssima:

O novo troço da linha Vermelha do Metropolitano de Lisboa foi inaugurado este sábado.

O prolongamento da linha tem 2,2 quilómetros de extensão, custou 210 milhões de euros e vai servir 32 milhões de passageiros por ano.

É a primeira vez que a linha Vermelha se interliga às três restantes linhas – Verde, Amarela e Azul – através de uma conexão transversal a meio da sua extensão. A grande vantagem para os utilizadores do metro passa pela redução substancial na duração das deslocações.

A título de exemplo registe-se que uma viagem entre a Alameda e São Sebastião passou de 17 para apenas cinco minutos. A obra foi iniciada em 2003 com previsão de conclusão em 2006 e foi inicialmente orçada em 132 milhões de euros. Terminou em 2009 e com um custo total de 210 milhões de euros.´

(…)

No JN.

* Novidades sobre a Linha de Leixões – novos apeadeiros e assim:

Linha de Leixões vai ao S. João

Comboios de passageiros vão efectuar paragens junto ao hospital a partir de 2010

Os comboios de passageiros da linha de Leixões vão efectuar paragens, a partir de 2010, junto ao Hospital de São João, Porto, para facilitar a interligação com a rede de metro, revelou o administrador da CP Ricardo Bexiga.

Um dos pressupostos que alicerçou a decisão política de abrir a linha aos passageiros tem por base precisamente o objectivo de “potenciar a intermodalidade”, sublinhou o gestor, à agência Lusa.

Além do apeadeiro nas imediações do Hospital de São João – que ficará ligado à estação de metro por uma via pedonal de cerca de 200 metros -, será construído um outro junto à Efacec, em Leça do Balio. Otília Sousa, da CP/Porto, disse que estes apeadeiros estarão operacionais em 2010, “talvez em Maio”.

(…)

De lembrar que a empresa Metro do Porto ainda não definiu uma data para construção da segunda linha da Maia, que servirá os 43 mil habitantes que se repartem pelas freguesias de Pedrouços e Águas Santas. Por isso, o serviço de passageiros da linha de Leixões “vai funcionar como a linha de metro que ainda não temos”, disse à Lusa o presidente da Junta de Pedrouços, uma das freguesias da Maia atravessadas pela ferrovia.

A linha ferroviária de Leixões, que durante 43 anos serviu apenas o transporte de mercadorias, passa a dispor de serviço de passageiros já na altura de reinício do próximo ano escolar, em Setembro.

Numa primeira fase, o serviço abrangerá apenas um traçado de 10,6 dos 19 quilómetros da ferrovia e somente com paragens nas estações de Ermesinde, Sangemil, São Mamede de Infesta e Leça do Balio. Mais tarde, será estendido a Leixões, imediações da estação terminal da linha de Metro de Matosinhos.

Esta segunda fase do projecto, “já está em estudo mas exige uma intervenção de fundo, não existindo ainda uma data definida para a conclusão”, segundo informações recentes do administrador da Refer, Alberto Ribeiro.

A segunda fase exigirá, de acordo com o responsável da Refer, um investimento mínimo de dez milhões de euros, a que acrescem os custos da construção da estação intermodal no Porto de Leixões, em terrenos cedidos pela Administração dos Portos do Douro e Leixões.

Segundo Otília Sousa, o serviço de passageiros arranca em Setembro apenas com a venda de bilhetes em trânsito, mas um dos objectivos de curto prazo é criar condições para uso do título intermodal Andante, já adoptado na maioria dos transportes da região do Porto. Todas as paragens serão dotadas com máquinas de venda e carregamento do Andante e as composições vão ser equipadas com validadores daqueles títulos, assegurou.

Otília Sousa adiantou, entretanto, a perspectiva de o serviço de passageiros prosseguir na linha de Leixões após a construção da futura linha de metro para Pedrouços e Águas Santas.

Ok, Senhor de Matosinhos só daqui a uns anos – e Contumil-Campanhã-São Bento?

Quanto ao ramal da Linha de Leixões entre as estações Sangemil e Contumil, a mesma responsável admitiu que dificilmente será usado para transporte de passageiros.

Mais uma vez, ‘é muito difícil’, uma variação do habitual ‘é muito complicado’ da CP.

No JN.

* Um conceito fascinante – intercambiadores. Uma boa maneira das autoridades se esquivarem a modernizar a rede ferroviária:

Intercambiadores são comuns

Alta velocidade e a rede convencional são uma só rede em Espanha

“Os intercambiadores em Espanha são tão comuns e habituais como os touros, a paella ou as sevillanas”. Alberto Garcia Alvarez, investigador da Fundación de los Ferrocarriles Españoles (FFE), arrancou uma gargalhada à assistência numa conferência em Barcelona, ao projectar a imagem de um aparelho intercambiador numa via-férrea ao lado dos tradicionais ícones espanhóis.

Trata-se de um mecanismo que se instala em plena via entre as duas extremidades de linhas com bitolas (distância entre carris) diferentes que adaptam os eixos dos comboios aos dois tipos de via, permitindo dar continuidade à viagem. As composições (denominadas bibitola ou de eixos variáveis) têm de estar preparadas para isso – e em Espanha a Talgo e a CAF têm várias -, mas o mais importante é que esta operação é feita com o comboio em andamento e sem que os passageiros disso se apercebam, a não ser uma ligeira pancada seca no momento em que as rodas se “aproximam” ou se “afastam” sobre o eixo no momento exacto em que mudam de bitola.

Em Espanha esta tecnologia tem permitido que os corredores de alta velocidade sejam bem aproveitados para fazer repercutir os ganhos de tempo neles obtidos em destinos da rede convencional. Um exemplo: diariamente comboios de eixos variáveis saem de Cádis em linha de bitola ibérica, passam por um intercambiador em Sevilha para a linha de bitola europeia, mudam de novo em Madrid para bitola ibérica e outra vez em Saragoça para a linha de bitola europeia até ao seu destino final em Barcelona. Complicado? Os passageiros não dão por nada e só sabem que viajam directamente da Andaluzia até à Catalunha.

O sucesso desta tecnologia não se deve apenas ao seu bom desempenho na articulação entre as linhas de alta velocidade e linhas convencionais. Desde há 40 anos que nuestros hermanos instalaram intercambiadores na fronteira francesa para permitir que os seus comboios internacionais ligassem directamente Madrid e Barcelona a Paris e Genebra sem necessidade de os passageiros mudarem de comboio nos Pirenéus.

Estas quatro décadas não só deram o pretexto para agora se organizarem exposições a recordar a efeméride como também abriram a porta à possibilidade de exportar a tecnologia para países europeus ou asiáticos, numa época em que tanto se fala da interoperabilidade ferroviária. Por isso os espanhóis juntaram os dois sistemas rivais da CAF e da Talgo num único aparelho chamado Unichanger, em parceria com outras empresas e entidades públicas, sob a égide da FFE.

No Público. Também no Público, também sobre a AV:

Governo pode adjudicar exploração do Lisboa-Porto à CP

Porto-Vigo e Aveiro sem comboios de alta velocidade para inaugurar nas datas previstas

A Rave tenciona lançar no último trimestre deste ano o concurso para a compra de 30 comboios TGV para as linhas Lisboa-Madrid e Lisboa-Porto, guardando para mais tarde a aquisição de material bibitola para a exploração de percursos que só utilizarão parcialmente a linha de alta velocidade.

Isto significa que numa primeira fase Aveiro ficará de fora da linha de alta velocidade Lisboa-Porto porque esta infra-estrutura passará ao largo da cidade, que só poderá ser servida com comboios bibitola, ou seja, material que circula na linha do TGV, mas pode sair para a via convencional para fazer serviços intermédios.

Não percebi, confesso.

As linhas de alta velocidade serão construídas em bitola europeia, que é 23 centímetros mais curta do que a bitola ibérica, pelo que a Rave pondera adquirir dez comboios bibitola para operarem em percursos em que são utilizados estes dois tipos de via, tirando assim partido dos ganhos de tempo obtidos nas linhas do TGV.

Mas como também a linha Porto-Vigo será feita em bitola ibérica entre o Porto e Braga e em bitola europeia daquela cidade até Vigo, não será possível tê-la a funcionar em 2013, como prevê a Rave, porque nessa altura não haverá ainda comboios bibitola para assegurar a totalidade do percurso. A menos, claro, que seja a Renfe (operadora espanhola) a assegurar aquele trajecto, visto que o país vizinho tem um excedente de comboios de alta velocidade, incluindo material bibitola.

Se não me falham as fontes, a linha entre Braga e o Porto terá as duas bitolas. O túnel na Trofa terá travessas polivalentes e a parte essencial da obra entre as duas cidades consistirá em trocar as travessas existentes por travessas polivalentes. Esta história dos comboios bibitola só o oiço de jornalistas. Mito de imprensa?

Do mesmo modo, também a linha Lisboa-Porto, prevista para 2015, terá comboios directos entre as duas cidades e outros com paragens intermédias em Rio Maior, Leiria e Coimbra, mas Aveiro só será beneficiada com o TGV quando se comprarem comboios que lá possam chegar.

Estação em Rio Maior? Nããããããããããããão.

Mais comboios

Como em 2010 se espera a liberalização do transporte internacional de passageiros, a entrada em operação do Lisboa-Madrid e do Porto-Vigo será feita nesse contexto de mercado liberalizado, sujeita a concurso público. Já para a linha Lisboa-Porto o ministério tutelado por Mário Lino admite que poderá ser a CP – “face ao excelente trabalho que esta empresa tem vindo a desenvolver ao longo dos últimos anos com o serviço Alfa Pendular” – a assegurar o serviço.

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Aliás, eu não paro de louvar o ‘excelente trabalho’ da CP Mais de um ano sem serviço de bar no Intercidades é o melhor exemplo. A sério, não. Façam um concurso público.

O Governo só fala assim porque sendo a Linha Porto-Lisboa uma linha nacional, poderá por isso escolher quem gere. Mas na linha para Madrid já não pode. Porque senão, Deus nos livre, seria a CP.

* Começa a guerra. Depois do problema em Alvalade, agora é em Carnide que resmungam (para quem não conhece – eu também não conheço – são freguesias do concelho de Lisboa) :

Juíza aceita providência contra ciclovia

A providência cautelar da Junta de Carnide, em Lisboa, contra a forma como está a ser construída a ciclovia na freguesia foi aceite, mas a juíza deu dez dias à Câmara para se pronunciar, disse, à agência Lusa, o advogado da Junta.

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Desta forma, a Junta não conseguiu suspender de imediato as obras da ciclovia e repor quatro faixas de rodagem na Avenida Colégio Militar, tal como pretendia.

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O autarca voltou a frisar a ausência de estudos de tráfego que analisem o impacto destas medidas no trânsito e que suportem a decisão da autarquia de reduzir de quatro para duas as faixas de rodagem na Av. Colégio Militar e disse ter confirmado a informação com Sá Fernandes.

“O vereador diz que não é preciso qualquer estudo, mas as coisas não se fazem assim de boca. Voltou a dizer que era uma obra que ia ao encontro das reivindicações da Junta de Carnide quanto à falta de estacionamento e de árvores, mas esqueceu-se de discutir connosco a forma como tudo isto ia ser feito”, afirmou.

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Em declarações à agência Lusa, a semana passada, Sá Fernandes, afirmou que o projecto da mobilidade suave foi analisado com as várias freguesias e rejeitou que a obra vá trazer problemas de trânsito para a zona.

“Se as pessoas querem mais estacionamento, mais árvores e a ciclovia não há outra forma de o fazer senão da forma como está a ser feito”, afirmou.

No JN.

Passei os olhos pelas wikis sobre democracia e não encontrei o que me interessava. Queria uma definição da “salvaguarda da diferença” na sociedade, mas a minha paciência não chegou para tanto. Isto porque defendo uma sociedade em que a diferença seja protegida (o que é ligeiramente diferente da ideia de alguns conservadores que acham que esta sociedade estimula grupos com comportamentos “divergentes”, como homossexuais ou artistas). A partir do momento que assumimos que diferentes somos todos, e “normal” é apenas a parte dos nossos comportamentos mais partilhada por todos, percebe-se que a sociedade que salvaguarda a diferença protege-nos afinal a todos.

Tanta introdução para tão pequena estória. Descia eu a Sacra Família pelo habitual sentido proibido quando um mui respeitável condutor acelerou à vista de uma família que atravessava a rua. Visão não de todo invulgar, concordo. São as ruas de Portugal. A família correu e tudo acabou em bem. Ao ver-me a mim, amedrontadamente encostado aos carros à minha esquerda, com as mãos emocionalmente aferradas ao volante da Gazelle e a revolta à solta, decidiu tentar mais uma “simulação de atropelamento”, método tão usual em prisões geridas por estado-unidenses. É certo que não me atropelou (simulou corretamente o atropelamento), mas manteve-me indignado por largas semanas.

Já te disse que andar de bicicleta é perigoso, repetiu o meu previdente pai. Sei bem que é perigoso. Afinal, respirar é perigoso. Se não o fizermos com método e afinco, morremos. E a frase do meu pai, apesar de recorrente, sobreviveu. Ora, vivemos (sobrevivemos) numa sociedade movida a automóvel, qual gasóleo não combustível. As alternativas praticáveis (pé, bicicleta, transporte público) medram à sombra do carro, até que algum dia possam assumir-se como maioritárias e hegemónicas, como nunca deveriam ter deixado de ser. Os problemas que estes modos de mobilidade enfrentam são os usuais: passeios estreitos para os peões (não é que concorde com a ideia de “passeio”, mas não é para já essa crónica), falta de lugar na via pública para a bicicleta, falta de investimento e de planeamento estratégico nos transportes públicos. Estes são, grosso modo, os obstáculos que cada um destes meios de locomoção tem de enfrentar. É claro que a loucura não tem lugar neste inventário.

Especificamente na ciclo-mobilidade, há uma vintena de fatores que desmobilizam qualquer utilizador de bicicletas a fazê-lo no dia-a-dia, como a pavimentação não adequada, falta de preparação dos condutores de automóveis, falta de adequação do desenho urbano às bicicletas, etc. A loucura dos condutores, não.

Isto é como dizer que não se pode praticar natação porque o nosso treinador pode querer afogar-nos intencionalmente. As ruas são nossas, são a nossa polis. Tomemo-las.