Progresso e gramática.

Rio Fernandes, no Porto24.

Depois de muitos anos a “arrastar os pés” na reforma da administração pública, há uma nova oportunidade aberta pela troika – que obrigou a Grécia a regionalizar-se –, a qual, todavia, parece ser muito mal aproveitada pelo governo, num “documento verde” (que título!!!) que mais parece uma espécie de proto-”Lei Relvas 2″ por fazer lembrar a misturada e confusão que ocorreu quando Relvas era secretário de Estado e achou bem fazer aprovar a criação de grandes e menos grandes áreas metropolitanas (Trás-os-Montes esteve quase a ser área metropolitana!), comunidades urbanas de vários tipos e pequenas associações municipais (como a que estabeleceu na margem sul do Rio Minho).

Entretanto fala da fusão das freguesias e diz:

Bem mais relevante para o município do Porto e todos os demais da Área Metropolitana do Porto serão, ou poderão ser, os efeitos de uma (desejável, digo eu) transferência de competências do nível central do Estado e do nível local do Estado para a AMP. Tal deveria implicar a eleição direta de quem a dirige (hoje desconhecido de 99,9% dos cidadãos), para maior responsabilização e capacitação, o que não é previsto numa proposta que muito fala em descentralização, mas que nesse sentido nada propõe de especialmente relevante.

Fala bem Rio Fernandes. Sou rapaz novo mas lembro-me bem das ideias peregrinas de Miguel Relvas, que entretanto voltou à carga.

No JN.

A CP vai continuar a assegurar a ligação entre Porto e Vigo, na Galiza, “pelo menos” até 31 de Janeiro de 2012, na sequência do prolongamento do acordo com a empresa espanhola Renfe.

No Público.

Estudo propõe modernização da Linha do Minho em alternativa à alta velocidade
Apostando que não haverá TGV, municípios do Alto Minho apresentam estudo que potencia linha existente e põe o Porto a uma hora e 40 minutos de Vigo, com um quinto dos custos

Em vez da alta velocidade, cuidemos das linhas que ainda temos e modernizemo-las antes que fechem. Em resumo, esta é a tese do documento elaborado pela TRENMO Engenharia, SA, do professor universitário Álvaro Costa, em que se propõe um investimento de 180 milhões de euros para electrificar, instalar sinalização electrónica e rectificar o traçado da Linha do Minho entre Nine e Valença, por forma a que a viagem desde o Porto à fronteira com a Galiza seja feita numa hora e 15 minutos

Álvaro Costa está a estudar a possibilidade de Barcelos e Viana do Castelo passarem a integrar a coroa suburbana dos transportes públicos do Porto, o que pressupõe a modernização dos 42 quilómetros de via férrea entre Nine e Viana. E, dada a escassez de recursos da Refer, propõe que este investimento seja realizado pelo operador privado que vier a ganhar a concessão da CP Porto.

Com a linha electrificada e dotada de sinalização automática até Viana, os custos de exploração baixavam e a procura aumentava, porque se reduziria o tempo de percurso.

Esta proposta tem ainda a vantagem de, com o mesmo investimento, servir também Barcelos, Viana do Castelo e Caminha, “cosendo” o litoral minhoto. O TGV, em contrapartida, só serviria Braga.

Situação actual:
-Porto-Viana 2h10 (Regional);
-Porto-Viana 1h37 (Inter-regional);
-Porto-Vigo 3h19

Com modernização do troço Nine-Viana (43 milhões de euros):
Porto-Viana 1h15;
Porto-Vigo 2h00

Com modernização do troço Nine-Valença (180 milhões de euros):
Porto-Valença 1h15;
Porto-Vigo 1h40

Com Alta Velocidade (aproveitamento da linha actual Porto-Braga e linha nova até Valença com
ligação a Vigo) (945 milhões de euros):
Porto-Vigo 1h00

E o governo, o que acha?

O Governo não tem quaisquer planos de investimento na modernização da linha ferroviária do Minho. Foi esta a resposta dada pelo executivo ao deputado do PS Jorge Fão, que questionou o Ministério da Economia, por requerimento, sobre os planos da tutela para aquele troço ferroviário.

Comissão Europeia admite financiamento da modernização da ligação ferroviária entre Porto e Vigo

A Comissão Europeia (CE) admitiu a possibilidade de financiamento comunitário da modernização da ligação ferroviária de passageiros e mercadorias entre Porto e Vigo, anunciou hoje o PCP. “A modernização das linhas ferroviárias em Portugal pode ser financiada pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional e pelo Fundo de Coesão, através dos programas regionais ou do programa de desenvolvimento territorial (POVT)”, explica o comissário europeu Joahnnes Hahn, na resposta enviada no dia 16 à deputada do PCP no Parlamento Europeu, Ilda Figueiredo.

Na carta, o comissário europeu lembra que, em relação ao POVT, “foi previsto o financiamento da ligação ferroviária de alta velocidade entre Porto e Vigo durante o período de 2007-2013”, mas, “devido a limitações orçamentais, o Governo português anunciou que esse projeto vai agora ser adiado”. Numa nota enviada hoje, o PCP refere que a comissão “admitiu ainda a possibilidade de financiamento comunitário para assegurar a articulação daquela ligação ferroviária com infraestruturas da região, como o Aeroporto do Porto, o Porto de Leixões e o próprio Porto de Viana do Castelo”.

Isto porque, na resposta, a Comissão Europeia assume que “seria igualmente possível financiar as ligações entre o sistema ferroviário e as redes de outros meios de transporte e infraestruturas ao abrigo do programa regional para a Região do Norte «ON.2 -Programa Operacional Regional do Norte»”. De acordo com a CE, “um dos objetivos específicos deste programa é a promoção da conectividade do sistema urbano regional, o que poderá incluir o financiamento da infraestrutura ferroviária.”

Para os comunistas, a missiva constitui uma “confirmação da justeza das reivindicações do PCP quanto à necessidade de assegurar o desenvolvimento urgente de um programa plurianual de modernização integral da linha do Minho e de completo reequipamento do material circulante a utilizar nessa ligação internacional”. Este programa permitiria, para os comunistas, “reduzir substancialmente a duração da viagem e concretizar um vasto plano de promoção da ligação internacional entre o Porto e Vigo, aproveitando todas as potencialidades de procura garantidamente existentes, seja no plano das relações económicas, seja no fomento turístico, seja na rentabilização do afluxo de utilização do Aeroporto do Porto e demais infraestruturas existentes na região Norte”.

Em julho, a transportadora ferroviária pública CP anunciou a decisão de acabar com a ligação internacional até Vigo, devido à necessidade de “racionalização de custos”, tendo depois decidido mantê-la, após a congénere RENFE ter acedido a suportar os custos do serviço em território espanhol.

Por dica do Carlos de Sá. Na Rádio Geice.

Alcaide de Tui “ameaça” cortar ponte internacional se acabar ligação Porto-Vigo

O alcaide de Tui, Galiza, advertiu esta sexta-feira que se a ligação ferroviária entre Porto e Vigo for interrompida a 30 de Setembro a população protestará na rua, “cortando a ponte internacional” que liga a Valença

Em cima da mesa esteve a discussão em torno da necessidade de investimentos na Linha do Minho, como sinalização e electrificação, de forma a reduzir os tempos de viagem entre Porto e Vigo, actualmente em cerca de três horas, e assim tornar o serviço mais atractivo e competitivo.

Aquela localidade galega, junto a Valença, tem no comboio português, da CP, que ali para, em ambos os sentidos, quatro vezes por dia, a sua única ligação ferroviária ao resto de Espanha.

No JN.

Caro Henrique Pereira dos Santos,

permita-me que discorde de grande parte da sua argumentação.

Posso explicar-lhe o que move a Associação Comboios XXI, de cuja Comissão Diretiva faço parte, na defesa da manutenção da ligação ferroviária entre o Porto e Vigo (e tantas outras). Nós, muito a custo e ao longo de muitos anos, compreendemos o esquema mental de quem dirige a CP. É fácil de resumir: fecho de linhas deficitárias, manutenção das ligações de longo-curso que dão lucro, concessão dos serviços urbanos a privados. Quando o HPS fala de coração/razão no que toca a quem defende a ferrovia, é bom que reconheça onde está o coração e a razão de quem decide.

Nesse sentido (e numa avalanche que já avança desde os anos oitenta), a CP tem seguido um percurso claro, estudado, de depreciação do serviço público ferroviário (muitos chamar-lhe-ão sabotagem) com vista ao favorecimento de outras modalidades de transporte. Assim aconteceu com todas as linhas encerradas desde então, e assim tem acontecido na Linha do Minho.

Foi relativamente fácil encerrar a ligação ferroviária entre Bragança e Mirandela (no final dos anos 80) sem aviso prévio, a meio da noite e cortando as comunicações da cidade, mas bem mais difícil será fazê-lo hoje em dia no Minho, com tanta cobertura mediática disponível e com tantas forças cívicas a trabalharem a favor da defesa das populações.

Assim sendo, a estratégia de fecho da Linha do Minho é mais subtil na forma mas semelhante no objetivo. O aviso de fecho do Porto-Vigo foi feito, sim, mas numa subpágina da CP, sem comunicado de imprensa ou comunicação semelhante. As justificações foram vagas (“não estão reunidas as condições necessárias”). O prazo para o fecho, curto. A tática, de colocar o ónus no estrangeiro (Renfe), é prática política corrente.

O que move a Associação Comboios XXI é o seguinte (isto enquanto não se muda de paradigma de desenvolvimento e não se investe na ferrovia o que se investe na rodovia): defender as vias estreitas do Douro é defender a linha do Douro, o que significa defender a Linha do Norte e a ferrovia em geral de Portugal. Uso este exemplo externo por ser mais fácil de exemplificar: como um rio (o Douro, p.e.), um sistema ferroviário alimenta-se dos seus ramais (p.e., o Tâmega) para subsistir. Se a Linha do Norte não é alimentada pela Linha do Douro, perde clientes; se a Linha do Douro não é alimentada pelos ramais, perde clientes e viabilidade.

Desde há uns meses que o fecho da Linha do Douro (no troço entre o Pocinho e a Régua) está em cima da mesa. Esta questão não se colocaria há uns quarenta anos, quando as linhas de via estreita funcionavam em pleno. Entretanto o serviço nestas vias deteriorou-se, criaram-se rupturas de carga desnecessárias, desinvestiu-se na manutenção da via e das máquinas, criou-se tudo para a tragédia – até que morreu gente no Tua, e surgiu a desculpa para fechar centenas de quilómetros de via férrea, já amputada de parte dos percursos quando Cavaco Silva era primeiro-ministro.

Neste quadro já se pode falar em fechar grande parte da Linha do Douro, que deixará de alimentar a Linha do Norte e do Minho. Este exemplo serve para o Porto-Vigo. O que está em operação na Linha do Minho foi ensaiado ao longo de décadas por todo o país. Não duvide que depois de se eliminar a ligação internacional começará a eliminação de ligações regionais e interregionais a norte de Viana, e começará a falar-se do fecho da ligação ferroviária entre Viana e Valença. E aí já sobrará muito pouco do potencial duma rede ferroviária alimentada por todo o país.

Atenciosamente,
Nuno Gomes Lopes

Esqueci-me apenas de referir que a sabotagem já está em curso na Linha do Minho há décadas:

-de um serviço que fazia Lisboa-Porto-Vigo-Corunha direto sobrou apenas o Porto-Vigo. Já ninguém considera o comboio para ir de Lisboa à Corunha;
-com a eletrificação da Linha do Minho apenas até Nine, parte dos comboios oriundos de Viana passam a fazer transbordo nesta pitoresca aldeia (parte dos transbordos são incomportáveis);
-igual para Viana, que também é palco de transbordos para quem vem do norte;
-o investimento na linha nas últimas décadas é insignificante;
-o sistema tarifário piorou, algo inaudito em países evoluídos;
-não há ligações diretas de Viana para sul do Porto.

Etc, etc.

Nuno Gomes Lopes

Há quem ache que defender o ambiente passa por atacar pessoalmente os ‘falsos ambientalistas’. E há quem ache que defender o ambiente se faz defendendo o ambiente.

errata: não é Comissão Diretiva mas sim Comissão Administrativa

Aí estou eu na RTV, falando sobre a tentativa da CP de encerrar o Porto-Vigo. Sobre este e outros temas ferroviários tive o prazer de partilhar a mesa do Majará com Álvaro Costa, da FEUP, e Miguel Ângelo Pinto. Falámos do presente e do futuro da ferrovia, em tempos tão assustadores quanto estes. A francesinha, no entanto, não era má.

A Comissão Directiva da ComboiosXXI tem estado muito activa (marcando presença nos Media e efectuando inúmeros contactos), no seguimento da noticia do encerramento da ligação internacional Porto-Vigo, a partir de Domingo 10 de Julho, para evitar que tal aconteça.

Nesse sentido, a ComboiosXXI, em articulação com movimentos de cidadãos galegos, está a organizar uma manifestação para o próximo Sábado dia 9 de Julho.

O programa é o seguinte:
11h30 – Porto (Campanhã) – Acção de protesto (c/ provável presença dos Media portugueses)
12h45 – Porto (Campanhã) – Embarque no comboio InterRegional 853 com destino a Valença
15h00 – Valença – Acção de protesto em conjunto com grupo galego (c/ provável presença dos Media galegos)
19h38 – Valença – Embarque no ÚLTIMO comboio Internacional 422 com destino ao Porto
21h55 – Porto (Campanhã) – Chegada com acção simbólica

PORTO-VIGO 02
PORTO-VIGO 01