Progresso e gramática.

O dia 9 de julho foi o culminar (feliz) de uma semana trágica para a ferrovia portuguesa. O primeiro-ministro cessante, José Sócrates, fechara mais de 300 km de caminhos-de-ferro, e deixou preparado um plano (secreto até há pouco tempo) de encerrar cerca de 800 km mais. Com o país mais inclinado para a discussão das gorduras (reais ou não) do Estado por imposição do triunvirato (BEI, UE, FMI), o estado deficitário das ferrovias portuguesas tornou-se conversa de café por todo o país. Com a chantagem económica causada pelos usurários internacionais, parte dos pressupostos em que assenta o Estado Social português passaram a ser alvo do ataque de todo o tipo de opinadores da praça mediática portuguesa.

Por todas estas vicissitudes, têm-se exigido ao caminho-de-ferro, parente pobre da rede de transportes do país, o mesmo que se exige a uma qualquer empresa privada: viabilidade económica. Ora nem em países com redes de transportes evoluídas (e mais cultura de utilização de transportes públicos) isso acontece, por que razão se devia exigi-lo aos comboios em Portugal (um serviço público, da mesma maneira que um hospital é um serviço público)? A rede de transportes públicos geridas pelo Estado tem de providenciar o melhor serviço, reduzindo ao mínimo o prejuízo. Se der lucro, melhor. Mas não é essa a sua função.

O primeiro ataque da terceira guerra ao caminho-de-ferro português (contando com o genocídio ferroviário dos governos de Cavaco Silva) foi o anúncio, numa subpágina da CP na internet, do fecho da ligação ferroviária entre o Porto e Vigo. Sem comunicado de imprensa, sem contraditório, sem razão. A Comboios XXI, uma associação da qual faço parte e que defende os utentes da ferrovia portuguesa, decidiu agir quanto antes. Na internet e nos principais meios de comunicação, a Comissão Diretiva da CXXI expressou todo o seu espanto pela interrupção do serviço. Ao investigarem, perceberam que a razão apontada pelos serviços de atendimento ao cliente da CP para o iminente fecho da linha era afinal motivada por obras; entretanto a CP anunciou que os comboios vindos do Porto teriam como término Valença; de seguida prometeu-se um inacreditável término em Tui, justificado pela possibilidade de os utentes poderem aí aceder a transbordo com os comboios da Renfe, quando é na estação de Guilharei e não da de Tui que é possível fazê-lo; alguns dias depois surgiu a justificação de que afinal toda esta indefinição vinha da falta de acordo com a Renfe pela divisão dos custos em território galego.

Durante todo este processo se iam descobrindo os podres da argumentação da CP, que dizia não poder continuar a acarretar prejuízo de um comboio seu “em território espanhol” (!). Enquanto que o prejuízo (estimado) do Porto-Vigo era de 235.000 euros anuais, as luxuosas ligações de Lisboa a Madrid (Lusitânia Comboio Hotel) e a Irún (Sud Expresso), com modernos comboios Talgo alugados à Renfe, custavam, respetivamente, 2 milhões e 7 milhões de euros por ano. E a humilhação da eurorregião continuou quando a CP revelou que apenas 11 passageiros viajavam entre o Porto e Vigo em cada comboio. Um delírio da transportadora portuguesa, quando apenas em Campanhã era possível comprar bilhetes únicos para Vigo, e sabendo que raramente existia revisor no troço Tui-Vigo, a maior parte dos viajantes viajava de borla.

A manipulação de dados e o chorrilho de mentiras da CP acabou dia 8 de julho quando se anunciou a continuidade da ligação. Até setembro sobrevive o comboio.

Nuno Gomes Lopes

Ficheiro original aqui.

Novas da Galiza - Pode falar-nos um pouco dos seus antecedentes em termos políticos? Sei que o seu percurso começou durante o fascismo.

Pedro Baptista – Aos sessenta e alguns anos é a segunda vez que estou metido no projeto de criação de um partido. Na primeira vez tinha 21 anos. E às vezes dou por mim a fazer comparações entre uma coisa e a outra. As comparações não as faço muito em torno de mim mas em torno do mundo que me rodeia. E de facto são mundos diferentes.

NGZ - E qual foi esse primeiro primeiro partido?

PB – Foi o Grito do Povo, um jornal-movimento que deu origem à OCMLP, que era uma organização comunista, como eram todas, com uma orientação maoísta, como eram quase todas, que ultrapassou e abafou um pouco o PC, como também todas, no fim dos anos 60. E essa foi a minha primeira experiência política organizada, como um dos fundadores desse movimento.

Read more…

Esther Rodríguez afadigava-se no seu encontro semanal com os moradores de El Escorial, um barrio suburbiano da Grande Metrópole de Madrid. Muitos, senão quase todos os setenta milhões de metropolitanos de Madrid não o eram de origem, mas oriundos de toda a Ibéria, España de seu antigo nome. Refugos das alterações que se chamavam de temporales quando surgiram, e eternas ao fim de mais de um século de mar descomposto e insubmisso. Com as cidades costeiras arrasadas, o Governo Centralista optou pela lógica proteção dos eleitorados trazendo-os para próximo dos eleitos, e nas províncias deixou-se pouco mais que administradores agrícolas e mineiros. Criando uma metrópole, encerrou-se um país.

Esther corria todas aquelas caras e indagava das suas origens, caras cansadas que pouco ou nada revelavam que não a modorra dos hábitos estabelecidos. Da vivienda unifamiliar para o trabajo-núcleo, dependurados dos trams das altas líneas, em voo lento e incerto.

Encargada Esther, le importaría hablar más, más devagar, que no la entiendo.

Devagar ¿qué?

e essa palavra estranha zurziu-lhe as entranhas do cérebro até que, dois dias depois, de volta à uni, já com a mão no sensor, se lembrou. Da sua abuelita, nascida ainda na província, de um lugarejo perto de Oporto chamado Matosiños. Dizia-lhe, sempre que a via a correr pela uni, Corre más devagar, chica, que te vas a romper los huesos.

Devagar! A sua mão largou o sensor e logo a outra acionou la red, providência do Serviço Centralista de Informação, SCI. O dicionário sugeria-lhe de vagar, duas palavras. Procurou antes na busca geral, e surgiu-lhe uma página brasileña, conteúdo normalmente evitado pelas pessoas de bem. Bloqueada, com o beneplácito do SCI. Desceu à rua sem mais – se aquela mulher dizia devagar e o dizia de uma vez só, não era invenção. Encontrou-a com a brújula que o seu estatuto de encargada lhe outorgava num bar perto da sua uni. Falou-lhe sem rodeios. Perguntou-lhe pelo empleo, exigiu-lhe dados pessoais. Carlita Gómez, residente local, casada, dois infantes. Olhava Esther de olhos arregalados, temente por si e pelos seus. Esther, descarregada de razões para a travar mais, concluiu:

¿Y su familia, de dónde és?

Mi visabuelo vino de Porriño, Encargada. Cerca del Viejo Vigo. De donde sacaban el granito, el gran cráter. ¿Lo conoce?

Publicado no Novas da Galiza de Novembro

Convenhamos, a aparente bonomia do coloquial ‘tudo bem?’ é apenas um convencionalismo social, um leve toque de hipocrisia que nos alegra as manhãs. O que inicialmente nos pode parecer uma inquirição não é mais que uma interjeição, quase que um bocejo, não sendo muito diferente de dizer ‘olá’, ‘xau’ ou ‘até logo’. Qualquer interlocutor se surpreende quando a nossa resposta a tal dito se assemelha a ‘pá, ando doente’ ou ‘não, estou na merda’. Primeiro porque como acham que ‘tudo bem?’ não é uma pergunta, não esperam resposta; segundo porque muitas das vezes não é o nosso bem que lhes interessa, mas antes esta ‘harmonia’ social, esta descarada indiferença que cada vez nos distancia mais. Orwell dizia, ao longo do seu inesgotável 1984, que ‘guerra é paz’, ‘liberdade é escravatura’ e ‘ignorância é força’. Os nossos costumados ‘deixa lá’ e ‘a vida é mesmo assim’ são como encolheres de ombros à realidade, e o mundo doentio e controlado de Orwell reinventa-se e ganha força em todos esses nossos lugares-comuns quotidianos.

O confronto (não social, mas de ideias) deveria ser a base da nossa sociedade, estimulada pelos governos, tesouro nacional. E não restam dúvidas que a competição e o conhecimento são premissas da evolução e desenvolvimento humanos. O que vemos em muitas das sociedades modernas (nas quais, Galiza e Portugal, nos incluímos) é que a discussão de ideias, o direito de divergir e a diferença são muitas vezes encarados como ‘entraves ao desenvolvimento’. Se um governo estipula certa política como a porta do sucesso, quem ousar definir-se como contrário a essa política é um ‘inimigo do sucesso’; se uma obra pública é escolhida como a solução para determinado problema e alguém se insurge e questiona a real validade desse problema (ou se essa obra é de facto a solução), esse alguém não é mais que um amigo do subdesenvolvimento.

Podem dizer-nos que não censurar a China pelos recorrentes atentados aos direitos humanos é uma vantagem comercial. A China é grande de mais economicamente e nós pequenos de mais para que possamos mostrar a nossa dissidência. O que ganharíamos com essa birra? Honra, valor? Nada disso. O que nos falta é dinheiro. E está um Mundo definido.

Publicado no Novas da Galiza de Agosto