Progresso e gramática.

Publicado no Público no dia 12 de novembro de 2011. Os meus agradecimentos sentidos a Nuno Pacheco, pela compreensão, e a todos os amigos, pela força.

Francisco Jaime Quesado trouxe-nos um artigo pejado de erros e omissões

No seu artigo “Um choque territorial“, publicado no Público a 27 de agosto, Francisco Jaime Quesado (FJQ) afirma que Portugal necessita duma “aposta nas cidades médias” para conseguir um país mais “plano”. Afirma também que, segundo o “novo estudo de projecções da ONU, em 2025 a Região da Grande Lisboa vai comportar 45,3 % do total da população do país”, passando de uma população “de 3,8 milhões, em 2000, para 4,5, em 2025″. A Área Metropolitana do Porto teria, em 2025, 23,9% do total da população portuguesa.

Não querendo fazer considerações de política territorial às afirmações de FJQ, prefiro concentrar-me na discussão dos números apresentados, e das denominações utilizadas. Começo pela “Grande Lisboa”, que no início do artigo também é referida como “Região da Grande Lisboa”. A “Grande Lisboa” é uma NUTS III (correspondente ao sul do distrito de Lisboa) que comportava em 2009 pouco mais do que 2 milhões de habitantes, enquanto que a “Região de Lisboa” é uma NUTS II (que existe apenas para efeitos estatísticos, e que engloba o sul do distrito de Lisboa e o norte do distrito de Setúbal), com mais de 2,8 milhões de habitantes. É coincidente em termos geográficos com a Área Metropolitana de Lisboa (AML). Conclui-se então que nunca existiu qualquer “(Região da) Grande Lisboa” com 3,8 milhões de habitantes, nem em 2000 nem agora.

Por outro lado, FJQ compara essa massa gigantesca (imaginária?) de território e população com a Área Metropolitana do Porto, essa sim concreta e facilmente quantificável: quase 1,7 milhões de habitantes em 2011, cerca de 16% da população portuguesa. O que se consegue com este jogo de números, denominações trocadas e confusão geográfica? Um engano, que procura prolongar o mito de que um terço da população portuguesa habita em Lisboa (e à volta dela). E com isso se eternizam opções de desenvolvimento erradas, com centralismos irremediavelmente desfasados da realidade.

 

A infografia que apresento foi criada expressamente para rebater esse mito. Ou melhor, rebato esse mito confirmando-o: um terço da população portuguesa mora de facto no concelho de Lisboa e à sua volta. Se repetirem o exercício (abstrato) de desenharem uma circunferência com um raio de 80 km centrada em Lisboa, encontram cerca de 3,45 milhões de pessoas, quase um terço da atual população total do país, 10,6 milhões. Mas se desenharem igual círculo à volta do Porto, encontram cerca de 3,77 milhões. Mais de um terço da população. E se o raio aumentar para os 120 km, a diferença é ainda maior: 5,29 milhões à volta do Porto (incluindo Vigo e outros concelhos galegos) e apenas 4,08 milhões à volta de Lisboa.

O que se pode concluir disto? Lisboa, enquanto aglomeração urbana (ou enquanto Área Metropolitana), constitui a maior concentração populacional do país. Quanto a isso não restam dúvidas. O Porto, enquanto região metropolitana (ou assumindo os 120 km de raio como “área de influência”), é a maior do país. E é o centro da trigésima terceira maior megarregião do mundo (que Richard Florida erroneamente apodou de Megarregião de Lisboa). A demografia diz-nos pouco do poder real das regiões, mas é clara neste aspeto: o Porto é o centro populacional do país.

Voltando ao artigo de FJQ, o autor refere, com a clareza que só os números podem dar, que essa “Grande Lisboa” concentraria em 2025 “45,3% do total da população do país, tornando-se na terceira maior capital metropolitana da União Europeia, logo a seguir a Londres e a Paris”. Após ler tal projeção, inédita para mim, tratei de procurar na internet dados que corroborassem as afirmações do autor. Encontrei de facto as World Urbanization Prospects, publicadas pela ONU. A última atualização foi feita em 2009, não se percebendo muito bem o que entende FJQ quando escreve “o novo estudo de projecções da ONU”. Um “novo estudo” com dois anos de idade. Nesse estudo Lisboa é apresentada como tendo em 2009 2,8 milhões de habitantes (a população da AML), prevendo que a população possa chegar aos 3 milhões até 2025. Percorrendo o documento percebe-se que esse crescimento, relevante, não aproxima a AML da dimensão de outras aglomerações urbanas europeias que não Paris ou Londres (Madrid, 5,8 milhões em 2009, 6,4 em 2025; Berlim, 3,4 milhões em 2009, 3,5 em 2025).

Por outro lado, quando FJQ fala da concentração de 45,3% da população portuguesa, confundiu a população total com a percentagem da população urbana a residir na zona da capital. Esse número, 45,3%, corresponderá já à percentagem da população urbana portuguesa que habita na AML. O que os estudos da ONU nos dizem é que essa percentagem, até 2025, irá descer até 41,6%. Ou seja, apesar do aumento de população estimado para a AML e da diminuição do total da população do país (de 10,6 para 10,1 milhões), o peso da AML no total da população urbana do país irá até diminuir. As conclusões de FJQ, assim sendo, perdem todo o fundamento. O que a ONU nos diz é que a população portuguesa continuará a deixar as zonas rurais, mas cada vez mais para outras concentrações urbanas, também no litoral.

Nuno Gomes Lopes, arquiteto

P.S.: descobri em http://www.apfn.com.pt/Noticias/Set2008/110908a.htm outro artigo de FJQ intitulado “Portugal (ainda) não é plano”, que está referenciado como publicado pelo Público a onze de setembro de 2008. Outro artigo? A verdade é que os artigos só não são exatamente iguais porque algumas palavras são diferentes e certas frases não existem em ambos os artigos. A única verdadeira diferença é esta: nesse primeiro artigo os dados da ONU não são relativos a 2025, mas sim a 2015.

Nota (18/11/2011): entretanto partilhei a base de dados que deu origem à infografia.

Passei os olhos pelas wikis sobre democracia e não encontrei o que me interessava. Queria uma definição da “salvaguarda da diferença” na sociedade, mas a minha paciência não chegou para tanto. Isto porque defendo uma sociedade em que a diferença seja protegida (o que é ligeiramente diferente da ideia de alguns conservadores que acham que esta sociedade estimula grupos com comportamentos “divergentes”, como homossexuais ou artistas). A partir do momento que assumimos que diferentes somos todos, e “normal” é apenas a parte dos nossos comportamentos mais partilhada por todos, percebe-se que a sociedade que salvaguarda a diferença protege-nos afinal a todos.

Tanta introdução para tão pequena estória. Descia eu a Sacra Família pelo habitual sentido proibido quando um mui respeitável condutor acelerou à vista de uma família que atravessava a rua. Visão não de todo invulgar, concordo. São as ruas de Portugal. A família correu e tudo acabou em bem. Ao ver-me a mim, amedrontadamente encostado aos carros à minha esquerda, com as mãos emocionalmente aferradas ao volante da Gazelle e a revolta à solta, decidiu tentar mais uma “simulação de atropelamento”, método tão usual em prisões geridas por estado-unidenses. É certo que não me atropelou (simulou corretamente o atropelamento), mas manteve-me indignado por largas semanas.

Já te disse que andar de bicicleta é perigoso, repetiu o meu previdente pai. Sei bem que é perigoso. Afinal, respirar é perigoso. Se não o fizermos com método e afinco, morremos. E a frase do meu pai, apesar de recorrente, sobreviveu. Ora, vivemos (sobrevivemos) numa sociedade movida a automóvel, qual gasóleo não combustível. As alternativas praticáveis (pé, bicicleta, transporte público) medram à sombra do carro, até que algum dia possam assumir-se como maioritárias e hegemónicas, como nunca deveriam ter deixado de ser. Os problemas que estes modos de mobilidade enfrentam são os usuais: passeios estreitos para os peões (não é que concorde com a ideia de “passeio”, mas não é para já essa crónica), falta de lugar na via pública para a bicicleta, falta de investimento e de planeamento estratégico nos transportes públicos. Estes são, grosso modo, os obstáculos que cada um destes meios de locomoção tem de enfrentar. É claro que a loucura não tem lugar neste inventário.

Especificamente na ciclo-mobilidade, há uma vintena de fatores que desmobilizam qualquer utilizador de bicicletas a fazê-lo no dia-a-dia, como a pavimentação não adequada, falta de preparação dos condutores de automóveis, falta de adequação do desenho urbano às bicicletas, etc. A loucura dos condutores, não.

Isto é como dizer que não se pode praticar natação porque o nosso treinador pode querer afogar-nos intencionalmente. As ruas são nossas, são a nossa polis. Tomemo-las.